quinta-feira, outubro 26, 2006

Hoje, quedo-me triste como um píncaro. Cansado, maquinalmente. Os meus bocadinhos de diferença esquecida, de sensações e consistência diluída num haver gente e mundo, transtornos invísiveis na fragilidade com que estilhaço e perco a conjectura paralela, esses pedaços de crosta que me doem na pele ao irem caindo, desfazendo-se liberdades vãs pelo tornado fora, mortes prévias sem cemitério...

A dureza da impotência, a dôr da simplicidade, a fome de não ter fome, de não engolir as mentiras todas, de não me engolir escassez. A aspereza de tudo isto vomitar o seu significado, em todo o externo, para o fora-fim. Dejecto de fragilidade.

E depois, há o ninguém (nem remoto) em que recaia isto com franqueza, em que recaia o eco de uma mensagem talhada, não há um verosímil sequer que me corte as veias deste palpitar suicida que é o quarto sem dormir.

Resta uma conclusão sem palato deste remoer-me frugal que inconcluso resta.
De finais de Setembro:

Um palácio circunstancial e hoje. Paredes decoradas de lembranças anímicas. Corredores sangrentos de bombeando anémicos o labirinto. Um átrio de varandas viradas para o interior. Uma fonte ao centro, que chora o tempo a escorrer. O burburinho da oração a diluir-se nele, mentiroso ritual humedecendo-se. A sanidade forçada da relva sintética. Lá no alto, o sol consciente emudece-se de desígnio, e a liberdade desmorona-se neste intervalo edificado que aparta ruas e movimentos.
De 29 de Agosto:

O ar, de necessidade carregado,
torna-se a pressão de deuses
indefinidos, talvez fáceis.

A ferramenta substitui o objectivo,
tendo por componente funcional
veicular acessos.

As hipóteses percebidas legislam
a formação do fluxo de energias
em si inteligentes.

Por inconstantes emoções esvoaçado
o céu desaba, feito de quimeras
que já foram outras.

As coisas nascem o que têem sido,
transferidas cargas do querer
que é o condicionamento.

A meia meta se repete a vida,
produto passeio por terrenos
alguns, pouco férteis.